Holanda · vida de imigrante

Um ano de Holanda

Dia 10 de agosto faz um ano que saí do Brasil.

Já voltei uma vez, e confesso que já foi meio esquisito: ainda não estava definitivamente fora do país porque justamente tinha aquela viagem de volta já marcada para ali 90 dias. Mas também já não estava lá, porque minhas coisas e minha vida começavam a se acomodar na Holanda.

Minha casa não era mais a minha casa.

Depois saí, sem data para voltar, se bem que com alguma vontade. As coisas se encaixaram aqui de uma forma que eu não previ. Pode ser fase de lua de mel, sim, tem disso. Mas pode ser que não, e eu espero que esse sentimento confortável que tenho vivendo aqui fique.

Claro que a saudade existe, e acho que vai existir sempre. Pelas pessoas que amo e que estão longe, pela minha vida de lá que não existe mais, pelo pão de queijo nosso de cada dia que não tenho mais. Mas aqui já tenho rotina, já tenho amigos, trabalho, sonhos. Até marcas favoritas no mercado, programas tradicionais de cada dia. Uma vida nova que se formou.

Então, parabéns para mim, por um ano de vida holandesa. Por um ano de saudade, e por um ano de novas descobertas.

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diarinho · vida de imigrante

Bo, the cat


Quando eu vim para cá além de morrer de saudade da minha família tive que lidar com outra ausência tão doída quanto: as dos meus gatos.

Quem tem um amor peludo em casa vai saber do que eu estou falando. Estar completamente sozinha em casa era algo estranho para mim. Mesmo quando morei fora de casa nunca foi tão silencioso, e de repente eu me vi all alone de verdade, sem nenhum gato por perto para conversar #adoida.

Trazer meus 3 gatos não era uma opção porque eles tem uma vida realmente ótima no Brasil, com os meus pais. Eles são uma família entre si, mesmo a minha caçula que é a gata mais minha mesmo não tinha jeito de trazer. 

Então uma das minhas poucas demandas na mudança era justamente ter um animal de estimação. Meu namorido nunca teve nada, e dizia que queria um cachorro. Mas com a vida que a gente leva no momento o bichinho ia ficar sozinho em casa, o quintal é pequeno e achamos que era mais problema que solução.

Eu que sempre fui dos gatos, queria um gatinho filhote para amar. De novo a falta de tempo no meio, já que não tinha como deixar um filhote sozinho. Então decidimos que um gato adulto que não precisasse sair toda hora seria o ideal.

Enquanto isso eu ficava namorando os animais disponíveis para adoção no Ik zoek een baas, site que mais que indico. Lá tem animais em abrigos em toda a holanda, e muitos tem até um resuminho da personalidade do bicho.

Eis que um dia, do nada, vejo uma foto de uma gata a cara da minha gorda, gata que ficou no Brasil com os meus pais, e que meu namorado adora. Mandei foto para ele e ele me responde com um “ok, essa a gente pode adotar”. Isso depois de tanto tempo de indecisão. Marcamos e em um dia de folga fomos visitar a gatinha.

Aí já era. Foi amor de cara, e na hora decidimos levar para casa. Foi até engraçado porque os funcionário do abrigo não estão acostumados com esse povo decidido, perguntavam toda hora se a gente queria reservar a gata. Pagamos a taxa (120 euros) e decidimos já comprar o kit todo com caixinha de transporte, banheiro, areia e até ração do próprio abrigo (acho que foi 70 euros mas vem com tudo, tudo mesmo). Eles são super organizados e cuidam muito bem dos animais, preferimos dar nosso dinheiro para eles do que comprar em uma loja.

E foi assim que essa senhora de 12 anos entrou em nossas vidas.

 

Para quem dúvidas sobre adotar um gato adulto, gente, relaxa. No Brasil eu sempre achei meus gatos na rua, e muitos eram adultos. Com paciência eles se adaptam. Aqui foi mais tranquilo ainda porque eles te dão todo o perfil do gato. O negócio é ter paciência até o gato se adaptar, afinal é muita mudança para o coitado.

A Bo no primeiro dia se escondeu de um jeito que a gente jurou que tinha perdido a gata, mas no final ela tinha se enfiado em um vão de um móvel. Hoje ela dorme na cama de hóspedes e vive atrás da gente.

 

A safada agora vive se jogando no chão pedindo carinho na barriga, pode? ❤

 

vida de imigrante

E a família, como vai?

Acho engraçado que quando falo com alguém do Brasil sobre morar fora as reações quase sempre são duas: ou a pessoa é super encorajadora, ao ponto de ver somente o lado positivo de sair do país, ou solta um “ah, eu não conseguiria” geralmente seguido de “sou muito ligado à minha família”.

Como se eu não fosse.

Morei com os meus pais quase toda a minha vida. E além disso posso dizer que sempre fui muito próxima deles, e dos dois. Sim, eles me deixam maluca de vez em quando, como todos os pais nos deixam. Mas eu sempre pude conversar com eles, de verdade. E tive muita sorte porque além de ótimos pais, meus pais são pessoas corajosas que também ganharam o mundo.

Além disso tenho uma irmão que agora, na maturidade, posso dizer que conheço bem.  Porque tem muita gente que mal conhece seus irmãos. E sei que posso contar com ele, assim como ele pode contar comigo.

Meus pais sempre viveram no Brasil. Mas é engraçado pensar que quando eles saíram de casa para morarem em outros estados, eles estavam indo para muito mais longe do que eu vim para a Holanda. Lá na década de 60 quando minha mãe aos 18 anos deixou uma fazenda em Santa Catarina para ganhar o mundo em São Paulo a comunicação com a minha nonna era por carta, que demorava muito para chegar. Elas não se falavam. Hoje eu falo todo dia com a minha mãe, e muitas vezes com video. Ela sabe como foi o meu dia, como está a minha vida e até o que estou pensando em fazer para o jantar, tudo.

Meu pai então…. saiu do Pará para ir estudar e trabalhar em São Paulo, só com passagem de ida e muita coragem. A passagem de volta era tão cara que ele ficou sem ver a família por anos. Anos.

Eu tenho o privilégio de poder planejar vê-los pelo menos uma vez por ano. Meu irmão já veio me visitar e estamos planejando que meus pais ainda esse ano venham me ver. E eu não estou aqui nem um ano completo.

Mas claro, pode não ser mais tão distante, mas também não é perto. E dói. Meu coração vive apertado porque quando vim para cá minha mãe passou por um problema sério e delicado. E eu não estava mais lá. Não tem como não sentir que se está abandonando o barco.

Mas de novo, eu tive muita sorte. Porque não tem filha mais dedicada que a minha mãe com a minha nonna, mesmo que ela nunca tenha voltado para casa. Porque meu pai apoiou a mãe dele da melhor maneira possível, e no final da vida ela estava perto dele, pelos esforços dele.

E assim, por crescer em uma casa sabendo que a distância pode ser debaixo do mesmo teto e a proximidade pode ter muitos quilômetros no meio, onde meus pais mais que me apoiaram durante a minha vida, mesmo não concordando ou até eles mesmos sofrendo, sei que a distância é relativa e que sempre estamos juntos. E para mim isso é amor, isso é ser pai e mãe de alguém – é ensinar a voar.

Então, dica: aquela pessoa que foi voar sofre também. Mas ela voa. Não ache que ela não sofre, ou ama menos, não julgue ou se ache diferente dela.

O amor dela que supera distâncias.

 

blogueiras brasileiras na holanda · vida de imigrante

3 coisas que aprendi na terra dos tamancos

Essa é a primeira postagem coletiva do #blogueirasbrasileirasnaholanda ❤ Participam as queridas autoras dos blogs Melissa na Holanda, Holandesando, Ana de Amsterdam, The Nerdylands, Diário de Prato, Bailandesa, Metamorfose Fashion e Little Jujuba. Além disso temos as vloguers Joyce Aurora, Nattya Wolff, Carol Alves e a instagramer Holandices .

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Sair do seu país é sair – literalmente – da sua zona de conforto e navegar rumo ao desconhecido. E por mais que eu nunca vá deixar de ser brasileira, não tem como não mudar e aprender coisas novas estando em um novo lugar, em uma nova cultura. E justamente esse é o tema da nossa primeira blogagem coletiva: os aprendizados e as mudanças causadas pela cultura holandesa. Bora lá?

1. Aprendi que lugar paraíso, se é que existe, não é aqui na terra não.

Tá aí uma coisa difícil de explicar para quem não mora aqui. Não, aqui não é perfeito. O Brasil está longe de ser perfeito também, claro, mas essa ideia que muita gente tem que tá na Europa tá no céu…. não é bem por aí.

Primeira coisa: a gente ganha em euro sim, mas paga conta em euro também. E trabalha muito, ainda bem. Esquece a ideia que desceu do avião e pronto, tá rycaaaa.

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É vida normal. Aqui o trem atrasa – ás vezes nem aparece. E é lotado, e o povo corta fila na caruda para entrar. Além disso tem gente muito mal educada que quase te derruba no chão e nem pede desculpa.

Nem tudo é baratinho, aliás tem coisas beeem caras – sim, mais caras que no Brasil. Comer fora, por exemplo, é luxo. Holandês vive de marmita. Médicos daqui, para desespero dos expats em geral, em 99,9% dos casos vão te dar um paracetamol e te mandar descansar – exame só se você estiver morrendo. E esquece ir direto no especialista, primeiro você passa com o seu médico de família e só se ele deixar muito você pode ir, digamos, em um dermatologista. Nem pagando do bolso você pode ir direto

Ah, sabe as bicicletas fofas que você vê em fotos? Roubam aos montes, por isso sempre use uma corrente (ou duas). Bebedouro é algo quase que inexiste. A política é complicada, a relação com as minorias então nem se fala. Enfim, mil coisas que só quem percebe quem vive o dia a dia.

E ainda assim adoro morar aqui. Como adorava morar no Brasil. Acho que aprendi que tenho que me adaptar e ver as coisas como são, lado positivo e negativo, sem complexo de vira lata nem de princesa.

2. Viver de acordo com a previsão do tempo.

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Aqui não existe isso de sair de casa sem consultar o app da previsão do tempo. O mais tradicional é o querido Buienradar, literalmente radar de chuva. Porque mesmo que o sol esteja estalando lá fora, acredite, pode chover em literalmente 2 minutos. E a temperatura pode cair 10 graus e você morrer de frio.

Depois saber da previsão do tempo para os próximos dias é chave para engatar papinho com holandês (e até não holandeses já adaptados). A gente sempre quer saber se vai dar para sair de camiseta um dia.

E tem o sol, esse fofo, que quase nunca aparece por essas bandas mas quando vem, é VIP. Primeira regra da primavera-verão na Holanda: aproveite os dias de sol. Como se fossem os últimos, porque talvez sejam mesmo os últimos do ano!

Taí uma coisa que nunca achei que faria, nunca liguei muito para dias ensolarados porque né, no Brasil é quase todo dia. Agora, aqui, mesmo tendo coisas para fazer, se eu posso, adio tudo para poder sair e aproveitar o sol.

E não sou só eu, claro. Parece que brota holandês do chão nos dias de sol, nunca se vê tanta gente na rua, cuidando do jardim, andando de bicicleta, andando no parque, tomando uma cerveja no markt – qualquer coisa, desde que lá fora. Holandês aproveita e muito os dias de sol, e agora eu também.

3. A ser mais organizada com a minha agenda. Mas também que ser tão organizado às vezes fica chato.

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Indispensável.
Aqui as pessoas vivem pelas agendas. Tá, eu sempre amei uma agenda também, e não curtia gente aparecendo do nada na minha casa para flagrar meu look faxina em todos seu esplendor. Mas aqui, sério, é outro nível. É agenda nível pró.

Explico.

Suponha que você queria ver alguém da sua família holandesa. Primeiro você convida, aí a pessoa checa na agenda dela a tal data. Geralmente ela não pode, aí ela te fala quando pode. Aí você checa na sua agenda e vê se você pode. Se você tiver sorte isso termina rápido, mas sério, pode causar um loop eterno de checar na agenda. E isso é chato, muito chato. Esquece aquela cerveja espontânea ou passar na casa de alguém assim do nada. Isso não existe aqui, pelo menos com os dutchies.

Por outro lado você sabe o que vai acontecer na sua vida com antecedência, o que vai ter que fazer, e até quando não vai fazer nada. E mais lindo de tudo, coisa que amo aqui: não tá a fim? Você diz NÃO e pronto, tudo bem, não precisa de justificar, inventar história, nada. Só diz que não dá e ponto.

E ninguém morre por causa disso. Tem coisa mais linda?

***

A vida é mudança. Mas acho engraçado como as mudanças de verdade estão nos pequenos detalhes, onde se percebe a adaptação. Não é fácil, nem sempre é divertido, mas com certeza essa experiência de deixar tudo para trás e começar algo novo é o maior aprendizado que se pode ter.

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Nuenen

Ano passado como parte do Brabant Expat Day fui em uma excursão do sempre excelente Holland Expat Center South (aliás vale a pena ficar de olho, os eventos deles são sempre ótimos) para Nuenen, por aqui conhecida como a cidade de Van Gogh.

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Claro que deram stroopwafel de lanche ❤

Ele morou na cidade por alguns anos e foi onde ele pintou o famoso “De aardappeleters”(1885). E como dá para perceber os moradores são extremamente orgulhosos disso.

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Nessa excursão fomos ao ótimo Vincentre, um museu sobre o pintor. Eu fiquei impressionada porque apesar de não ter pinturas originais a exposição é extremamente interessante, já que a trágica vida do pintor é explicada e analisada. Você sai com um novo entendimento das obras justamente por entender o que o levou à produzi-las.

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O registro original da caligrafia do Van Gogh.

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Aqui você consegue ver como era a cidade nos tempos em que ele caminhava ṕor ali, direto dos desenhos dele.

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Talvez seja algo que me toque pessoalmente porque uma das minhas memórias favoritas de escola foi em uma aula de arte aos 6 anos em que a professora contou que Van Gogh tinha cortado a própria orelha. Lembro que fiquei pensando nisso por meses.

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Ah, e tem fones com tradução em vários idiomas, então todo mundo entende.

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Além da vida dele, a exposição ainda mostra a vida da família e como eles o afetavam. O nosso guia não se limitou ao museu – fomos para a rua, ver como Van Gogh ainda está presente em Nuenen.

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A cidade é pequena e no centro tem essas marcações com os pontos de interesse, com explicação em holandês e inglês. Vale a pena ir parando e ouvindo porque mostra como a cidade era nos olhos do pintor.

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A casa do pai dele, se eu não estiver enganada….

Aqui o desenho e a vista original.

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Se eu não me engano é a casa de uma das paixões dele na época…. Mas a moça não foi autorizada a casar com ele.

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O povo nem curte a fama do quadro, né

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De aardappeleters agora em 3D. Ah, e tem uma cadeira de onde você pode ter a perspectiva do Van Gogh

Fora Van Gogh em si, Nuenen é uma cidadezinha linda, que vale a pena conhecer. Dizem que dá para ir de bicicleta de Eindhoven – eu fui uma vez só assim, e quase morri, mas sou a mais preguiçosa das criaturas. Com tempo bom vale sentar perto do lago, e ainda curtir o mini zoo para crianças que tem um café lindo de morrer. Saindo um dia de folga com sol vou lá e prometo fotos para o blog. Vale a pena mesmo.

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E para fechar o dia…. culinária holandesa! Sim, ela existe!

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Holanda · vida de imigrante

Trabalhar na Holanda

Ensaiei muito para escrever esse post porque não tenho pretensão de fazer desse espaço um guia da Holanda – é um blog com foco extremamente pessoal. Mas vejo tanta gente procurando emprego por aqui, que achei válido compartilhar a minha experiência – portanto, de novo, pessoal. Minha intenção é ajudar porque eu sei como é difícil essa fase e eu fui muito ajudada. Se você tem uma experiência diferente, compartilhe!

Primeira coisa, e a mais importante – estabeleça suas expectativas e verifique se estas correspondem à realidade.

Explico: existem áreas em que mesmo sem holandês, só com inglês, você vai achar ótimos empregos. Exemplo mais clichê é TI, que tem muita vaga, e ainda algumas áreas como engenharia ou de conhecimento extremamente específico, como de pesquisa.

Mas por outro lado se assim como eu você é um dos sortudos que fez um curso que só no Brasil vale ou só fazendo tudo novamente por aqui poderia trabalhar na área…. bom, o negócio é encarar a realidade.

Quando cheguei aqui, sendo advogada brasileira, já tinha em mente que não iria mais advogar. Eu decidi que não queria fazer a faculdade de Direito de novo, e no momento não posso encarar um master, mas claro, foi uma decisão pessoal. Eu mesma conheço uma moça que está fazendo Master aqui na área jurídica e acho excelente, e ainda outra que está se candidatando para tal. Mas eu decidi que não tenho tempo, energia ou vontade de seguir esse caminho. Então, baseada na minha decisão pessoal, o que eu fiz foi adaptar as minhas expectativas de “emprego na área” para “primeiro, qualquer emprego”.

Encarar  mudar de área de trabalho por si só já é bem complicado. Adicione mudar de país ao mesmo tempo e vai ter a situação em que eu estava. Então antes mesmo de sair do Brasil eu busquei pensar nas habilidades que usava no meu trabalho até então para focar a minha busca em algo que eu preenchesse o perfil. No meu caso eu sempre lidei com pessoas, gosto disso, e era focada em resolução de problemas. Assim minha opção foi procurar em Customer Care, área que tem muitas vagas e alguns que não se exige holandês. Para melhorar, procurei vagas com exigência de português, porque esse poderia ser o meu diferencial. E agora que finalmente achei e estou trabalhando nessa área estou adorando.

Caso tenha dúvidas vale conversar em grupos de expatriados (recebi muita dica legal por lá), achar pessoas da mesma área aqui, e até mesmo conversar os com recrutadores nas agências. Eles tem todo interesse do mundo em te arrumar emprego afinal, eles vivem disso, e podem dar uma luz para qual área você poderia tentar migrar.

Mas aqui vem outra dica: o único responsável por esse novo caminho é você. Ninguém mais.

Além disso arrumar um primeiro emprego já facilita MUITO as coisas. Pode não ser o emprego dos sonhos (normalmente não é mesmo) mas vai ser uma experiência de trabalho daqui no currículo. Meu primeiro emprego foi qualquer emprego, mas não me arrependo – me deu algum dinheiro enquanto achava algo melhor, e uma maior percepção do ambiente de trabalho aqui. E para quem te recrutar isso vai dar mais tranquilidade, afinal vão saber que você trabalha seriamente. Depois do primeiro, tudo tende a ficar mais fácil.

Para mim a primeira oportunidade foi em logística, trabalhando em armazém (warehouse). Tem muitas vagas nessa área, muitas não pedem holandês (só inglês) e a maioria das contratações são temporárias e por meio das agências de emprego, as chamadas uitzendbureau. Onde eu trabalhei não chegava a ser trabalho pesado, embora braçal. Para achar vagas minha dica é procure no google as agências de emprego perto de você, se cadastre em TODAS, e depois vá pessoalmente, em cada uma. Tomei muito não mas em uma, sim só uma, tive um sim. Depois de falar com o recrutador, na semana seguinte ele tinha me arrumado meu primeiro emprego.

Outra dica é Linkedin. Aqui é muito usado, então atualize o seu pro inglês já, e use a busca por empregos, criando alarmes para os termos que você procura. Foi assim que achei meu emprego atual.

Também vale se cadastrar em sites de procura de emprego (Indeed é um dos mais conhecidos, mas tem vários, é só olhar no Google). E de novo, criar alertas para as buscas, assim você vai receber novas vagas já no email.

Fora isso é persistir, falar com as pessoas, ficar de olho, ir nos eventos das agências. É difícil sim, mas não é impossível, e a Holanda ainda bem está em um ótimo momento econômico. Então, o negócio é correr atrás das oportunidades e aproveitar.

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Snow!

Tá, neve mesmo, pesada, fazendo barulho quando se anda e deixando tudo branquinho, já faz uma semana. Depois disso tem hora que neva mas logo derrete ou vira chuva na cara da gente (o que não é muito legal considerando que anda ao redor dos 2 graus e tem um vento nonstop nessa terra). Mesmo assim ainda fico felizinha (aka besta) toda vez que começa a cair um monte de floquinhos rodopiantes na minha janela.

(aliás, meu Dutchie que nasceu aqui e vê neve desde sempre fica todo empolgado também, talvez seja sempre assim ❤ )

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Vou poupar o mundo dos 376876 videos com o tema andando na neve. E sinceramente, nem quero me acostumar. Acho é ótimo ficar toda empolgada com o mundo todo branquinho.

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feliz ano novo

p_20161229_105713-02Eu adoro ano novo. Tá, novidade nenhuma para quem adora uma festividade (vulgo arroz de festa), mas ano novo é especial. Todo mundo dando reset na vida, um ânimo novo no ar, cheiro de novo mesmo. Tem gente que reclama, diz que é pura ilusão, uma vez  que o calendário em si é pura ilusão mesmo. Pode ser. Mas me chame de louca se quiser por gostar de uma ilusão que dá um novo ânimo, ainda mais depois de um ano hard mode que foi 2016.

E claro, como fã de ano novo, não poderia deixar de registrar minha listinha de resoluções:

  • Aprender finalmente e direito a fotografar no modo manual. Urgente.
  • Melhorar muito meu holandês.
  • Terminar de arrumar meu escritório ❤
  • Dieta pra ontem pra mim e pro namorido (porque sozinha não rola, definitivamente).
  • Voltar a praticar atividades físicas.
  • E já ia esquecendo, finalmente terminar os rascunhos de posts e colocar esse blog num ritmo real, porque de vez em nunca é mais nunca.

Nada maluco ou inatingível. Sim, os chatos dirão que qualquer dia é dia para mudança. Concordo. Mas colocar novos planos na agenda novinha, em branco, tem outro sentimento. Sentimento de possibilidade.

Sobre 2016, em compensação, quero lembrar somente das conquistas: depois de tanto tempo e tanto esforço finalmente estou do lado de quem amo. Finalmente comecei a minha nova vida, e meu esforço tem sido recomepensado. Pude fazer coisas legais para quem amo, melhorei minha cabeça, me descobri no budismo e de um modo geral me sinto melhor comigo mesma. Os desafios vieram e foram superados.

Então agora é começar de novo e continuar sempre.

 

 

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O lado de cá

No meio de tudo fugi de volta por 20 dias para ver a minha mãe que precisa de mim. E é tão estranho que o que veio primeiro na minha cabeça foi algo que eu li em algum lugar (para variar não me lembro onde) sobre como ser expatriado é estar sempre dividido entre duas casas e sentir que não se tem casa nenhuma ao mesmo tempo. E finalmente ter que concordar.

Explico. Lá, querendo ou não, e por mais que eu ame o país e a cultura, de vez em quando ainda me lembro que nunca vou ser 100% holandesa. Não tem nem como. A última foi em um posto de gasolina onde meu namorado ficou chocado quando sugeri que ele desse ré por 50 metros quando não vinha nenhum carro já que não havia retorno dentro do posto (!!!). Seguir as regras é ótimo, mas na minha cabeça brasileira isso nem é quebrar regras, é simplesmente lógico – se não tem retorno, dá ré. Mas lá não, se ele desse ré o mundo acabaria em fogo provavelmente.

Aí chego aqui, mal desço do avião e a primeira coisa que me assusta é o trânsito. E gente, é o mesmo trânsito onde aprendi a dirigir, e onde dirigi por mais de 10 anos. E mesmo assim me senti com olhos de gringa pensando como as pessoas sobrevivem aqui ao atravessar a rua (se bem que lá eu sempre paro quando vejo um carro vindo, mesmo quando não precisa – reflexo de brasileira).

E não, não vou só reclamar, fique tranquilo. Tem muito mais estranhamento bom do que ruim, que bom. Ontem parei e comprei suco de laranja de verdade em um quiosque no meio da Ladeira Porto Geral em São Paulo. E era barato, feito na hora, com gosto de fruta mesmo. E tem um a cada esquina, e dá pra comer com pão de queijo, com coxinha, um monte de delícias baratinhas em todo lugar que se olha. E as pessoas conversam com você quando você está comprando alguma coisa, não te olham estranho quando você fala algo além do esquema normal quero-comprar-você-quer-me-vender, estranhos falam com você, dá até pra fazer uma amiga de ocasião no outlet para revezar olhando as bolsas e pedindo opinião nas roupas. E eu entendo tudo que todo mundo está falando ao meu redor. Mesmo que seja uma condição temporária, assim espero, acho estranhíssimo lá estar no ônibus e não conseguir entender a conversa de ninguém. Logo eu, que sempre adorei observar seres humanos em seu habitat natural.

E tem meus estranhamentos extremamente pessoais. Faz tão pouco tempo que parti mas já tinha esquecido já como é estar em uma casa barulhenta, onde sempre tem alguém perto, nem que seja um gato. Onde posso comer comida de mãe, ir tomar café com meu pai, e comer alguma coisa nova com o meu irmão. Onde já se conhece os vizinhos todos, já que se mora ali há tanto tempo, e olha que isso porque nunca fui muito de ficar falando com vizinho. Onde se tem amigos de infância com aquelas histórias que ninguém mais sabe e que com quem é impossível pensar em dieta. Onde se tem os caderninhos da adolescência no fundo do armário, cheio de coisas que eu nem lembrava, e que vão ficar por aqui mesmo, junto com vários livros que li ou não, pois com um aperto no coração percebo que não cabem na mala. Porque por mais que eu queira minha vida daqui nunca vai caber toda na mala. Nem as pessoas que eu amo.

(Mesmo 2 malas de 32kg, momento em que amo ser brasileira com todo o meu ser)

Aqui sempre vai ser a minha casa também – ao mesmo tempo que não é mais. E lá é a mesma coisa, quando tudo parece finalmente confortável alguma coisa nova surge para me lembrar que sim, eu sempre vou ser a estrangeira.

Do lado de lá e agora do lado de cá também.

(E sim, a foto desse post é de uma coxinha, porque fora de gente também matei saudades dessa delícia)