vida de imigrante

Brasil, dois anos depois

Esse post demorou para sair da minha cabeça. Demorei quase 3 meses para colocar aqui a extrema saudade que me dá não de um lugar, mas de pessoas e de uma vida que não volta mais. Demorei por não saber bem o que dizer até.

Junto com dois anos de Holanda, vem dois anos sem Brasil. Finalmente retornei, vi os meus, vi a minha antiga vida. Não vi todos que eu queria, não fiz tudo que eu queria e nem vivi tudo que eu queria. A saudade é grande mas o tempo foi pequeno.

Alguns amigos me disseram que seria estranho, outros que tudo seria igual mas eu seria a estranha. É difícil dizer quem mudou mais, eu ou a minha antiga vida. De repente percebi que esqueci alguns detalhes, outros eu nunca tinha percebido antes. Não sei mais onde ficam as coisas em casa, não sei mais separar o lixo e me pego pedindo licença.

Estranhei o trânsito, estranhei o calor e até como as pessoas dão voltas. Me vi estranha, mais dura, ainda mais sincera (grossa até) sem querer, sem saber como lidar com as eternas voltas que se dão nos assuntos. Me peguei mil vezes pensando se sempre foi assim, e acho que sempre foi sim.

Lembrei de como as pessoas abraçam a gente assim tão fácil, como o sorriso está sempre estampado, como tudo é doce e barulhento. Tinha uma lista de coisas pra comer. Consegui não brigar com ninguém por política, e mesmo triste por esse país dividido, ainda assim consegui ter esperança. Vi minha família, tomei água da bica. Vi minha avó, que não chora mais em despedidas, uma vitória que acho que vem com a idade. Eu ainda choro, porque não sei se a gente vai se ver de novo. Ela se limitou a dizer tchau.

Chorei também com a gata que lembrava de mim e dormiu comigo todo dia. Confirmei que amigos não conhecem distância, que sempre vai parecer que nos vimos outro dia e o papo vai continuar a fluir assim, fácil. Que irmã que se escolhe sempre vai ser irmã, e com o coração pesado tive que dar tchau.

Meus pais cresceram sem eu estar por perto. Deram conta, decidiram coisas. Essa arrogância de achar que a vida só acontece quando você está olhando é só isso mesmo, arrogância. A vida continua, com ou sem você.

Realmente foi estranho. Tudo mudou, e tudo continuou igual. Eu mudei e ainda assim estava em casa.

E tive que dar tchau e voltar para a minha dimensão sem saber quando vou voltar.

E ainda estou aqui escrevendo sem saber bem o que dizer.

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