vida de imigrante

E a família, como vai?

Acho engraçado que quando falo com alguém do Brasil sobre morar fora as reações quase sempre são duas: ou a pessoa é super encorajadora, ao ponto de ver somente o lado positivo de sair do país, ou solta um “ah, eu não conseguiria” geralmente seguido de “sou muito ligado à minha família”.

Como se eu não fosse.

Morei com os meus pais quase toda a minha vida. E além disso posso dizer que sempre fui muito próxima deles, e dos dois. Sim, eles me deixam maluca de vez em quando, como todos os pais nos deixam. Mas eu sempre pude conversar com eles, de verdade. E tive muita sorte porque além de ótimos pais, meus pais são pessoas corajosas que também ganharam o mundo.

Além disso tenho uma irmão que agora, na maturidade, posso dizer que conheço bem.  Porque tem muita gente que mal conhece seus irmãos. E sei que posso contar com ele, assim como ele pode contar comigo.

Meus pais sempre viveram no Brasil. Mas é engraçado pensar que quando eles saíram de casa para morarem em outros estados, eles estavam indo para muito mais longe do que eu vim para a Holanda. Lá na década de 60 quando minha mãe aos 18 anos deixou uma fazenda em Santa Catarina para ganhar o mundo em São Paulo a comunicação com a minha nonna era por carta, que demorava muito para chegar. Elas não se falavam. Hoje eu falo todo dia com a minha mãe, e muitas vezes com video. Ela sabe como foi o meu dia, como está a minha vida e até o que estou pensando em fazer para o jantar, tudo.

Meu pai então…. saiu do Pará para ir estudar e trabalhar em São Paulo, só com passagem de ida e muita coragem. A passagem de volta era tão cara que ele ficou sem ver a família por anos. Anos.

Eu tenho o privilégio de poder planejar vê-los pelo menos uma vez por ano. Meu irmão já veio me visitar e estamos planejando que meus pais ainda esse ano venham me ver. E eu não estou aqui nem um ano completo.

Mas claro, pode não ser mais tão distante, mas também não é perto. E dói. Meu coração vive apertado porque quando vim para cá minha mãe passou por um problema sério e delicado. E eu não estava mais lá. Não tem como não sentir que se está abandonando o barco.

Mas de novo, eu tive muita sorte. Porque não tem filha mais dedicada que a minha mãe com a minha nonna, mesmo que ela nunca tenha voltado para casa. Porque meu pai apoiou a mãe dele da melhor maneira possível, e no final da vida ela estava perto dele, pelos esforços dele.

E assim, por crescer em uma casa sabendo que a distância pode ser debaixo do mesmo teto e a proximidade pode ter muitos quilômetros no meio, onde meus pais mais que me apoiaram durante a minha vida, mesmo não concordando ou até eles mesmos sofrendo, sei que a distância é relativa e que sempre estamos juntos. E para mim isso é amor, isso é ser pai e mãe de alguém – é ensinar a voar.

Então, dica: aquela pessoa que foi voar sofre também. Mas ela voa. Não ache que ela não sofre, ou ama menos, não julgue ou se ache diferente dela.

O amor dela que supera distâncias.

 

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