vida de imigrante

O lado de cá

No meio de tudo fugi de volta por 20 dias para ver a minha mãe que precisa de mim. E é tão estranho que o que veio primeiro na minha cabeça foi algo que eu li em algum lugar (para variar não me lembro onde) sobre como ser expatriado é estar sempre dividido entre duas casas e sentir que não se tem casa nenhuma ao mesmo tempo. E finalmente ter que concordar.

Explico. Lá, querendo ou não, e por mais que eu ame o país e a cultura, de vez em quando ainda me lembro que nunca vou ser 100% holandesa. Não tem nem como. A última foi em um posto de gasolina onde meu namorado ficou chocado quando sugeri que ele desse ré por 50 metros quando não vinha nenhum carro já que não havia retorno dentro do posto (!!!). Seguir as regras é ótimo, mas na minha cabeça brasileira isso nem é quebrar regras, é simplesmente lógico – se não tem retorno, dá ré. Mas lá não, se ele desse ré o mundo acabaria em fogo provavelmente.

Aí chego aqui, mal desço do avião e a primeira coisa que me assusta é o trânsito. E gente, é o mesmo trânsito onde aprendi a dirigir, e onde dirigi por mais de 10 anos. E mesmo assim me senti com olhos de gringa pensando como as pessoas sobrevivem aqui ao atravessar a rua (se bem que lá eu sempre paro quando vejo um carro vindo, mesmo quando não precisa – reflexo de brasileira).

E não, não vou só reclamar, fique tranquilo. Tem muito mais estranhamento bom do que ruim, que bom. Ontem parei e comprei suco de laranja de verdade em um quiosque no meio da Ladeira Porto Geral em São Paulo. E era barato, feito na hora, com gosto de fruta mesmo. E tem um a cada esquina, e dá pra comer com pão de queijo, com coxinha, um monte de delícias baratinhas em todo lugar que se olha. E as pessoas conversam com você quando você está comprando alguma coisa, não te olham estranho quando você fala algo além do esquema normal quero-comprar-você-quer-me-vender, estranhos falam com você, dá até pra fazer uma amiga de ocasião no outlet para revezar olhando as bolsas e pedindo opinião nas roupas. E eu entendo tudo que todo mundo está falando ao meu redor. Mesmo que seja uma condição temporária, assim espero, acho estranhíssimo lá estar no ônibus e não conseguir entender a conversa de ninguém. Logo eu, que sempre adorei observar seres humanos em seu habitat natural.

E tem meus estranhamentos extremamente pessoais. Faz tão pouco tempo que parti mas já tinha esquecido já como é estar em uma casa barulhenta, onde sempre tem alguém perto, nem que seja um gato. Onde posso comer comida de mãe, ir tomar café com meu pai, e comer alguma coisa nova com o meu irmão. Onde já se conhece os vizinhos todos, já que se mora ali há tanto tempo, e olha que isso porque nunca fui muito de ficar falando com vizinho. Onde se tem amigos de infância com aquelas histórias que ninguém mais sabe e que com quem é impossível pensar em dieta. Onde se tem os caderninhos da adolescência no fundo do armário, cheio de coisas que eu nem lembrava, e que vão ficar por aqui mesmo, junto com vários livros que li ou não, pois com um aperto no coração percebo que não cabem na mala. Porque por mais que eu queira minha vida daqui nunca vai caber toda na mala. Nem as pessoas que eu amo.

(Mesmo 2 malas de 32kg, momento em que amo ser brasileira com todo o meu ser)

Aqui sempre vai ser a minha casa também – ao mesmo tempo que não é mais. E lá é a mesma coisa, quando tudo parece finalmente confortável alguma coisa nova surge para me lembrar que sim, eu sempre vou ser a estrangeira.

Do lado de lá e agora do lado de cá também.

(E sim, a foto desse post é de uma coxinha, porque fora de gente também matei saudades dessa delícia)

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