diarinho

Mãe

Eu passei dois meses escrevendo esse texto na minha cabeça. Comecei no dia que recebi a ligação do meu irmão, chorando. Eu ali, com a passagem comprada para aquele mesmo dia, sabendo que já era tarde demais. Meu maior medo, o de não chegar a tempo, se concretizando. Escrevi pedaços desse texto também no caderno que eu tinha enfeitado e dado pra ela, minhas notas agora misturadas com as dela, no que acabou virando meu diário do luto. A mania de anotar tudo, em mil papéis e cadernos, comum entre nós duas. Sempre amamos as palavras, a escrita. Mais uma coisa em comum com a mãe com quem eu não parecia, mas era ao mesmo tempo tão igual.

Minha mãe estava doente há quase quatro anos. Câncer, como tanta gente. Ela lutou bravamente, também como tanta gente. A guerra estava ficando cada dia mais difícil. Parte de mim já sabia, e eu sei que ela desconfiava que dessa vez não ia dar. E ainda assim foi uma surpresa. Ela estava no hospital para se hidratar e tratar o enjoo sem fim das últimas semanas, aceitou ir depois de muita insistência.

Em um dia precisou de oxigênio, no outro dia não estava mais lá. 03 dias antes falamos no telefone, eu disse que queria ir já no dia seguinte. Ela disse que não, que eu esperasse até agosto, que a minha tia estava indo e ela estava bem. Que não precisava. Que em agosto a gente se via. Agosto nunca chegou para ela.

Minha mãe, sempre generosa, se preocupava com as colegas de quimio, com mães mais novas com filhos ainda pequenos, com rapazes com a vida toda pela frente. Ela me contava as histórias, ficava tão triste por eles, torcia para que melhorassem. Mesmo enfrentando o maior medo da vida dela, ela ainda tinha empatia e olhava pro lado. Ainda achava que a dor do outro poderia ser maior que a dela. Ficava aliviada de ter os filhos já adultos, de ter vivido a vida que queria, ter tomado as decisões que queria. Ter corrido os riscos, metido a cara, mudado tudo. Ainda conseguia ver o lado positivo das coisas. Tão corajosa, tão brava, tão generosa. Isso eu que eu quero lembrar, e quero acreditar que tenho o mesmo dentro de mim.

Eu não acho justo dizer que ela perdeu a batalha contra o câncer, porque eu sei que ela ganhou 4 anos, tendo descoberto o câncer de mama já no estágio IV. Ela ganhou tempo, dias, meses e anos de memórias e alegrias. Ela esteve no meu casamento, nós fizemos meu bouquet juntas. Ela me apoiou e foi apoiada. Ela e o meu pai se encontraram de novo, se conectaram. Ela foi viajar, deu risada, viu os Alpes, viu Campestrini. Arrumou o jardim e brigou com o meu pai por dar água demais para as plantas. Ela ganhou tudo isso.

Claro que me dói muito que ela não pode ganhar ainda mais. Que não vai conhecer os netos, que não vamos mais brigar ou cozinhar juntas, que não vai poder acompanhar os textos que eu escrevo aqui. Mas mesmo assim eu quero lembrar de como ela mudou, e outras coisas mudaram junto, pra melhor, nesses últimos 4 anos. Mesmo que as coisas não fossem sempre perfeitas eu sei que ali, na dor, eu pude me conectar com ela de uma maneira que eu nunca pude antes. Nesse tempo, onde ela teve que diminuir a marcha, parar de trabalhar, ter que parar e refletir, ela conseguiu extrair algo bom da dor, do medo, da fragilidade. Aprendeu a servulnerável (as vezes). Essa consciencia de quão frágil a vida realmente é, nos fez tão mais próximas. Uma pena que tivemos que passar por isso para chegar até aqui, mas chegamos.

A minha dor, as minhas lágrimas, meu luto é por causa do definitivo, do ponto final. Não vou entrar em questões de fé aqui, até porque fé é acreditar sem ter certeza, mas a ausência dela no dia a dia é tão absoluta e terrível que me espreme o coração. Cada vez que eu penso em ligar pra ela, e saber que ela não vai atender. Que eu vejo mais um creme de mão que eu quero comprar para ela, a viciada, e lembro que não preciso mais. As flores do jardim desabrochando e eu sem poder mandar fotos como eu sempre mandava. Tudo que eu queria era só ter mais uma ligação. Nada especial, só para falar sobre o que ela comeu, o que meu pai aprontou, como o mundo anda louco nas notícias que ela via na TV. Nossa conversa de quase todo dia. E me despedir como eu sempre fazia, e como fiz na última ligação que eu não sabia que era a última. Te amo mãe, conversamos de novo amanhã.

O definitivo também em saber que essa dor nunca irá embora. Na consciência de saber que não importa o que aconteça, eu sempre vou estar um pouco triste. Toda alegria daqui em diante vai ter uma gota azul de saudade, de ausência, de vazio. Ela não vai estar ali. Eu sei que com o tempo essa dor vai ficar mais fácil de carregar, que como ela mesma disse na última vez que nos abraçamos, não importa o que aconteça a vida continua. Eu sei que vou ficar bem. Mas eu também sei que nada vai ser como antes, nunca mais. Que o normal não existe mais.

vida de imigrante

saudade

Aí chega aquele temido momento em que a distância vai ser terrível. Minha mãe doente, sem saber se vai conseguir sair dessa, e eu tão longe no meio de uma pandemia e com outras complicações que não vou colocar aqui porque… porque todo o drama que existe ao meu redor agora me deixa exausta. E não quero ter que explicar ainda mais. E ainda bem que ainda tem um voo direto pra casa, porque pra muita gente não tem. Eu consegui voltar, só para saber que estou com Corona e preciso esperar para poder estar com ela. Trancada, de mãos atadas, ainda contando como privilégios não ter sintomas, poder ficar trancada em um hotel com tv a cabo e trabalhar. Para não ficar louca. A gente sabe do preço, sabe que um dia a conta chega e você não vai poder estar lá. Sabe a ordem natural das coisas, sabe como a vida é. Mas não se iluda – nem eu, nem você, bem ninguém vai estar preparado quando o momento chegar. O negócio é tentar pensar no que ainda se pode ajudar, e tentar manter os 1738839 arrependimentos que vão passar pela sua cabeça trancados naquela gaveta no fundo do seu cérebro. Porque insônia e lágrimas não vão ajudar ninguém. Hora de ter conversas significativas, de estar perto mesmo que trancada em um quarto de hotel. De tentar acalentar e não fugir do medo que todos sentimos nessas horas. De estar ali pela pessoa que se ama. E de se sentir sozinha como nunca.

Ah, e você que ainda duvida – eu não sinto nada. Nem febre, nem tosse, nada. Se puder ficar em casa não seja babaca e fique, porque essa doença espalha justamente porque mesmo quem não sente nada pode estar infeccioso.

A vista do cativeiro.

vida de imigrante

E as saudades do Brasil?

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Acabei de ler um post do maravilhoso Brasileiras pelo Mundo onde a colunista, que mora no Canadá, falou com todas as letras que não sente falta do Brasil em si, mas sim das pessoas. Eu me senti completamente representada e resolvi que era hora de encarar sem culpa a minha falta de saudades do Brasil.

Desde que cheguei aqui na Holanda me senti bem adaptada. Claro que no começo tudo é diferente e rola um certo deslumbramento, e outros imigrantes comentavam que depois da lua de mel eu sentiria muita falta do meu país, a bad ia bater com força, o famoso home sick.

3 anos depois, com invernos, chuva, trem que não veio, queda de bicicleta, atropelamento por bicicleta (pois é), sem pão de queijo na rua, sem ter carro, sem pagar pra fazer unha, sem faxineira, quase sem praia, muito vento gelado na cara e…. ainda estou bem aqui. Nada de home sick, nada de querer voltar, nem sequer de querer comer feijão todo dia. Deslumbramento em si passou, se bem que de vez em quando olho ao redor e suspiro pela belezura desse lugar, ainda mais no outono. Mas nada demais. Já consigo ver lixo no chão e jardim feio que antes não via.

Não sei bem o que é, mas não acho que seja falta de amor pelo meu país, até porque a política atual me faz esquentar o sangue como só faz pelas coisas que nos são caras, e ouvir hino nacional ainda me faz apertar a garganta. Adoro meus almoços com brasileiros, amo meus amigos brasileiros, e felicidade é encomendar farofa e ostentar pacotão de pão de queijo no Instagram.

Mas acho que no fundo sempre houve um desconforto meu morando lá, um estranhamento, e aqui isso não existe. Ou talvez seja porque saí sabendo que era a melhor decisão, mesmo sendo doída pelas pessoas que deixei lá. Talvez porque aqui as coisas façam mais sentido pra mim, mesmo que nunca completamente confortáveis também. Mesmo com o idioma que parece que eu nunca vou dominar, mesmo com coisinhas sempre a me surpreender, mesmo sabendo que estou perdendo muita coisa de gente que eu amo lá, ainda assim…. aqui acabou virando mais casa que lá.

E talvez seja melhor assim.

viagens

London calling

Meu blog, como já sabem, não tem grandes pretensões, seja de servir de guia ou entrar nessa onda de lifestyle. É blog diarinho mesmo, desavergonhado, que geralmente só serve para eu guardar certas memórias e dividir com quem quer saber de mim o que anda acontecendo na minha vida. Mas nesse post vou me dar a liberdade de dividir algumas dicas porque Londres me demandou muita pesquisa, surgiram algumas surpresas e acho que posso sim ajudar quem estiver pensando em ir pra lá. Mas de novo, sem grandes expectativas, só o que eu contaria para qualquer amigo sobre o lugar.

(E pelo menos dessa vez eu não esqueci de fazer o post porque eu sempre esqueço e o tempo passa, e aí não conto nada pra ninguém)

Esse ano, julho foi o meu mês. Aconteceram tantas, tantas coisas que eu resolvi me dar de presente de aniversário minha primeira viagem sozinha. Engraçado né, com 35 anos na cara essa foi a primeira vez que viajei sozinha mesmo, sem ninguém no lugar de destino, só eu e eu.

Londres era um sonho antigo, de menina, vendo os clips das Spice Girls. Tava mais de na hora de realizar.

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Eu resolvi que iria fazer um tour a pé pelos pubs, com uma pegada literária, e um tour de barco. Só, de resto eu mesma iria onde eu quisesse. Melhor coisa, porque Londres tem tanta coisa pra ver que eu preferi fazer uma visita rápida em vários lugares e poder ver mais, do que tour completinhos e demorados. Mas claro, isso porque foi a minha primeira visita e eu só tinha 4 dias, então queria mais quantidade que qualidade.

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O tour de barco fiz em um pacote com a London Eye, e achei que valeu a pena porque em 40 minutos vimos muita coisa e o guia-capitão era muito divertido, contando curiosidades do 007 e afins. . A vista da roda gigante é legal, mas…. é só isso, vista da cidade. É legal mas eu não colocaria na categoria imperdível. Mas no pacote, de novo, valeu a pena.

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Camden

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Camden é um dos bairro mais hipster (pronto, falei) de Londres. Parte da sua nova fama vem do fato que a Amy Winehouse morava ali, e é tido como um lugar super alternativo e diferente. Sim e não. O mercado do Camden é super legal, com várias coisas realmente originais de decoração, roupa, acessórios, e ainda tem uma parte de comida bem diversificada.

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As lojas ao redor, no entanto, achei beeeem decepcionante. Muita tranqueira chinesa, muita camiseta tudo igual e copiado, muita coisa bem pega turista. Acho que vale a pena para um passeio, pelo mercado, pela comida, mas não é mais essa coisa toda não.

 

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E como era segunda-feira aproveitei que era dia de feira de antiguidades e me mandei para Convent Garden. O lugar é lindo, super turístico, tem comida (não muito barata), e muita coisa para comprar.Nas ruas ao redor do mercado você encontra lojas super sofisticadas (recomendo a loja da Nars, fui e amei o atendidmento), tem loja da Melissa, e além disso vários artistas de ruas super talentosos. Parece que para se apresentarem em Londres eles precisam de uma licensa e demonstrar o talento para conseguir a bendita.

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Mas se a missão for realmente comprar antiguidades, foca no Jubilee Market, atrás do mercado do Convent Garden. Achei que era menos turístico e tinha tanto ou mais coisas que o Convent.

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Mas se tem uma coisa que acho que é imperdível em Londres é ir ver um musical no West End. Eu decidi bem de última hora, por isso Wicked e Hamilton só tinha ingressos super caros (varia de acordo com o lugar). Mas achei um com preço bem decente para ver Everybodys Talking About Jamie, e gente, me apaixonei.

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Os atores são impressionantes, porque eles cantam (divinamente) enquanto dançam, atuam, se movem pelo palco. E tudo ao vivo, ali, na sua cara. Saí toda feliz porque esse musical em especial é super leve e… feliz. Recomendo, muito, com força. E eu sou uma pessoa que nunca vê filmes de musical, então perceba.

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Um lugar bem interessante que fui só porque vi na pesquisa é o Sky Garden. É um dos prédios mais altos da cidade, e na cobertura tem realmente um jardim, além de um café e restaurantes. O mais legal é que se você agendar com antecedência dá para subir de graça, e se tiver sorte tem até balcão aberto. Ótima pedida para fotos e um café, vários turistas ficam lá batendo papo e descansando.

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Eu não tive sorte, porque fui justamente no meu último dia na cidade, e estava super chuvoso. Mesmo assim, adorei.

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Comida

Se tem um lugar pra comer que eu recomendo de olhos fechado é o Regency Café, para se experimentar o legítimo café da manhã inglês. O lugar é super vintage e tradicional, e turistas e locais dividem o espaço. O dono te atende na maior simpatia, e quando você vai embora grita um tchau Fulano! super simpático. O prato é super bem servido e só vai dar fome muitas horas depois, e não é caro (paguei 6,5 libras com o café).

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(Detalhe que agora fui ver o site do café e descobri que já foi locação de séries e filmes, olha só!)

Ainda sobre comida, fui surpreendida nesse quesito. Londres tem MUITA comida boa, e em cada esquina. Quase não fui em restaurantes, na maior parte das vezes comi em feiras gourmetizadas, e parece que sempre brota uma no caminho. E aí é pegar o pratinho e achar um lugar pra sentar.

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Para não dizer que não comi em nenhum restaurante, comi no Leon, que quase nem se encaixa nesse quesito. É um fast-food saudável, com ótimas opções veganas e preço decentes. Curti. Ah, e tem vários espalhados pela cidade.

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E ainda tem os pubs pra falar. Eu bebi em vários (valeu tour literário) e comi em um na região Fritzrovia (adorei lá), o The Marquis of Granby, que tem graça para quem fez o tour e saber que Dylan Thomas também bebeu lá (sério, ele bebeu em todos os pubs do bairro). A comida era bem boa, mas não tão barata. Vale pela experiência.

E tem ainda os mercados mesmo, tipo mercado municipal. Tem vários, e todos ótimos para comer, com comida de tudo que é país. E coisas para comprar, jesuis, obrigada Ryanair e a mala pequena, ou eu estava lascada. O que eu mais gostei fui por acidente, no último dia, porque eu fui logo pra estação mas ainda tinha muito tempo pra matar. Pertinho da estação Liverpool Street fica o Spitalfields Market, e eu recomendo DEMAIS esse lindo para uma refeição, comprar, e um café maravilhoso.

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Dicas

  • Faça pesquisa. Londres é enorme, tem muita coisa para ver e fazer, e você vai precisar sim se preparar. Veja o que quer ver, o que é imperdível para você, tenha pelo menos uma lista. Eu não sou muito fã de ter um roteiro muito restrito, tipo programar tudo que se quer fazer em todos os dias de viagem, mas algumas coisas tem que ser agendadas antes. E além disso fica mais fácil fazer as coisas que ficam perto umas das outras juntas, porque o tempo no transito pode ser precioso (nisso eu errei). Mas deixe espaços no seu roteiro porque sempre tem alguma coisa nova que você não tinha ideia no caminho, e poder parar para apreciar é metade da graça de viajar.
  • Se prepare porque a) Londres é cara e b) tem tanta coisa legal pra comprar que dá vontade de levar o mundo e c) você vai gastar. Fiquei até feliz pela mala de mão, porque o estrago seria bem maior se eu fosse despachar bagagem.
  • Reserve tempo para descansar. Aconteceu comigo, morri de tanto andar e teve uma noite que simplesmente não deu, fiquei no hotel de molho para poder encarar o outro dia. Falando nisso…
  • Traga mais de um sapato. Esse foi um erro besta meu, querendo economizar espaço na bagagem (Ryanair, fui com mala de mão, já viu) e isso quase que acabou com os meus pés. Tem que ter pelo menos dois pares para revesar, porque quando a gente anda demais e o sapato fica pegando sempre no mesmo lugar, vira tortura. Vai por mim. E tênis é a melhor opção.
  • A localização da hospedagem é importante. Eu fiquei no Lidos Hotel, no bairro Pimlico (até agora não sei como pronuncia), e adorei. Fica entre duas estação e tem uma linha de ônibus que cruza a cidade e para na porta. Não foi super caro, também não foi o mais barato, mas a localização é tão boa que economizei no transporte.
  • Para andar pela cidade de transporte público o melhor é comprar um Oyster Card. Inclusive, dá pra comprar antes de ir e receber em casa. Ou comprar lá (eu fiz isso), e pedir ajuda para saber quanto colocar no bendito. O funcionário que me ajudou acertou na lata.
  • Use e abuse dos ônibus. É mais barato, mais fresco, e geralmente no andar superior está vazio e é quase um tour. Fora que andar nos tais ônibus vermelhos é todo um charme. E sempre dá pra descer no meio do caminho se encontrar alguma coisa legal.
  • O metrô funciona bem, tem linha pra todo lado, mas é antigo e super abafado. Se for no calor, considere.
  • Dica de app para transporte público: city mapper. Para o transporte em Londres é muito melhor que Google Maps, e tem ótimas instruções. Fora que é atualizado, então se houver manutenção na linha, você vai ficar sabendo.
  • Se for na Kings Cross ver a estação do Harry Potter, tente ir durante a semana. A tonta aqui foi em um domingo, pegou fila pra entrar na loja (na estação mesmo desisti porque era muita gente), e depois descobri que tem uma loja MUITO MAIS LEGAL perto de Convent Garden (House of Spells, 69 – 71 Charing Cross Rd, London WC2H 0NE, UK – ainda sem website). Né.

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Por último… não dê bobeira. Londres é sim segura, mas nenhum lugar é o paraíso. A cidade é grande, tem gente esquisita na rua, tem muito turista e por isso tem ladrão, tem que ficar esperto. Eu viajei sozinha, e só uma noite em que voltei do musical fiquei meio cabreira, mas nada grave. Nada que quem mora no Brasil não se vire, mas de novo, olhos abertos e atentos. Assim cuidado bom bolsas, mochilas, ande onde tem mais gente… aquilo que a gente já sabe.

A tal da preparação

A internet pode ainda ser maravilhosa, e pra essa viagem pesquisa foi essencial. Youtube, eu te amo. Quando comecei a pensar nessa viagem, como eu só teria 4 dias, quis ver o que rolava na cidade e pegar o máximo de informação possível. Aqui tem alguns canais que achei incríveis para quem está planejando uma viagem para as terras da rainha:

Love and London: meu favorito. Feito por uma americana (acho?) e tem dicas para tudo que você imaginar. Super didático, recomendo checar principalmente os roteiros, listas de lugares imperdíveis e sobre transporte público.

Estevam pelo mundo: achei esse canal por causa de Londres e virei fã! O Estevam vai pra tudo que é lugar e as dicas de Londres foram ótimas!

E assim que comemorei essa nova fase na minha vida. Viajar sozinha foi muito mais legal do que eu imaginava, mas sei também que o destino ajudou. Londres é uma cidade maravilhosa, e eu sou obrigada a voltar porque eu só comecei a descobri-la. Espero que as dicas aqui ajudem outros viajantes a se apaixonarem por Londres como eu.

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Brasil, dois anos depois

Esse post demorou para sair da minha cabeça. Demorei quase 3 meses para colocar aqui a extrema saudade que me dá não de um lugar, mas de pessoas e de uma vida que não volta mais. Demorei por não saber bem o que dizer até.

Junto com dois anos de Holanda, vem dois anos sem Brasil. Finalmente retornei, vi os meus, vi a minha antiga vida. Não vi todos que eu queria, não fiz tudo que eu queria e nem vivi tudo que eu queria. A saudade é grande mas o tempo foi pequeno.

Alguns amigos me disseram que seria estranho, outros que tudo seria igual mas eu seria a estranha. É difícil dizer quem mudou mais, eu ou a minha antiga vida. De repente percebi que esqueci alguns detalhes, outros eu nunca tinha percebido antes. Não sei mais onde ficam as coisas em casa, não sei mais separar o lixo e me pego pedindo licença.

Estranhei o trânsito, estranhei o calor e até como as pessoas dão voltas. Me vi estranha, mais dura, ainda mais sincera (grossa até) sem querer, sem saber como lidar com as eternas voltas que se dão nos assuntos. Me peguei mil vezes pensando se sempre foi assim, e acho que sempre foi sim.

Lembrei de como as pessoas abraçam a gente assim tão fácil, como o sorriso está sempre estampado, como tudo é doce e barulhento. Tinha uma lista de coisas pra comer. Consegui não brigar com ninguém por política, e mesmo triste por esse país dividido, ainda assim consegui ter esperança. Vi minha família, tomei água da bica. Vi minha avó, que não chora mais em despedidas, uma vitória que acho que vem com a idade. Eu ainda choro, porque não sei se a gente vai se ver de novo. Ela se limitou a dizer tchau.

Chorei também com a gata que lembrava de mim e dormiu comigo todo dia. Confirmei que amigos não conhecem distância, que sempre vai parecer que nos vimos outro dia e o papo vai continuar a fluir assim, fácil. Que irmã que se escolhe sempre vai ser irmã, e com o coração pesado tive que dar tchau.

Meus pais cresceram sem eu estar por perto. Deram conta, decidiram coisas. Essa arrogância de achar que a vida só acontece quando você está olhando é só isso mesmo, arrogância. A vida continua, com ou sem você.

Realmente foi estranho. Tudo mudou, e tudo continuou igual. Eu mudei e ainda assim estava em casa.

E tive que dar tchau e voltar para a minha dimensão sem saber quando vou voltar.

E ainda estou aqui escrevendo sem saber bem o que dizer.

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Cenas de Outono🍁

Desde que vim para a Holanda minha estação do ano favorita é o Outono. Embora por aqui essa época seja famosa por chuva e frio, os dias de sol que fazem meu coração bater mais forte.

Eu tenho aproveitado muito bem os dias de sol, com folhas pelo chão. As cores das árvores é de outro mundo, sendo que as árvores vermelhas são as minhas favoritas. Eu e o marido saímos por aí só porque sim, para aproveitar e ver as cores de outono… Aqui algumas cenas do outono de 2018:

As mini cabras da minha amiga – profissão das duas é ser linda e receber carinho ❤️

Lulu

Zodra (filha de Satan de acordo com a dona, realmente rebelde) com o rabinho branco.

Aqui um dia nem tão lindo e um dia maravilhoso de sol!

Cerveja da estação!

Bo na cama nova

Bons entendedores entenderão

E por fim…. culinária holandesa!

E assim os dias estão passando, cada dia mais curtos, e as árvores perdendo as folhas…. adoro essa expectativa de aguardar o inverno. Os casacos já saíram do armário e as botas estão nos pés.

A Holanda é linda ainda mais nessa época, recomendo visitar. A chuva? Faz parte do pacote e não é nada que uma capa não resolva.

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2 anos de Holanda

Em agosto completei 2 anos morando na Holanda. Confesso que esqueci e só agora parei para pensar no assunto e esse esquecimento em si mesmo me fez refletir.

A verdade é que depois de um tempo estar aqui se tornou meu novo normal. Não sei bem quando aconteceu, só sei que de repente as casas bonitinhas viraram norma, sair de bicicleta também, e reclamar dos trens virou algo rotineiro.

A gente se adapta, às vezes mais rápido do que imaginava. Eu fico até sem jeito de escrever isso, porque não é por falta de amor pelo o que deixei pra trás, mas hoje em dia estar aqui é simplesmente… normal. Essa outra dimensão agora é a minha dimensão.

Estou em casa, mesmo sem nunca realmente ser holandesa. Claro que sempre vai ter um certo estranhamento, referências faltando, piadas que nunca vão ser entendidas. Mas também tem coisas que com as quais me sinto muito mais confortável aqui. Quem me conheceu no Brasil sabe que eu poderia ser considerada grossa pelo meu jeito direto de ser – aqui isso é normal. Que eu já curtia frio e chuva, e posso dizer que isso não me falta mais. Que sempre cheguei no horário ou até adiantada, e agora adoro não ter que esperar por ninguém.

Em 2 anos conquistei algumas coisas, mas outras estão demorando mais do que imaginava. O holandês é uma língua difícil, e eu sou uma estudante não tão dedicada como gostaria. Ainda não tenho minha carteira de motorista daqui, por falta de tempo, por ser cara e até por preguiça. Mas já tenho amigos “antigos”, rotina, lugares favoritos. Sei como chegar nos lugares, carrego as compras na bicicleta sem problemas. Tenho amigos holandeses, com quem posso reclamar do tempo e do almoço que é duas fatias de pão e uma de queijo (true story).

É um alívio ver que me acostumei com as coisas, mesmo que isso signifique que aquela curiosidade quase infantil por tudo está desaparecendo. É um alívio que tem uma dorzinha no fundo, de saber que eu nunca mais vou ser quem eu era antes de deixar meu país. Em saber que quando eu visitar a minha terra eu provavelmente vou estar desconfortável lá, desacostumada com as coisas mais banais.

Que estando lá, vou estar com saudades de casa.

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La Trappe

Voltando para tirar o pó desse blog porque ideias não faltam, mas tempo para escrever….

E para comemorar meu retorno, vim mostrar um lugar aqui no sul da Holanda que amei: a cervejaria La Trappe na cidade de Tilburg.

Para começar as cervejas trapista são cervejas especiais: somente 11 marcas no mundo possuem esse título. Para serem consideradas trappist as cervejas devem ser fabricadas dentro das paredes de um mosteiro da ordem, sob supervisão dos monges e parte dos lucros são destinados à caridade, sendo que a empresa não tem fins lucrativos.

Em Tilburg a cervejaria começou com monges franceses e toda a história pode ser conferida aqui. O lugar é lindo, com o mosteiro, a fábrica, jardins, uma capelinha e um restaurante. Ainda é possível fazer uma visita guiada (não fiz ainda, preciso voltar!), com direito a degustação. No website tem a relação de programas e horários.

Nessa minha primeira visita confesso que fui é conferir a comida do restaurante local. Tenho que dizer: é divina!

Eles tem um cardápio bem variado e várias das receitas levam a cerveja produzida no local. Um detalhe: o restaurante fecha cedo, então acho que é mais uma opção para o almoço e vale checa o horário de funcionamento antes de ir.

Além do lugar ser lindo, a comida e a cerveja maravilhosas, é bom saber que a La Trappe leva responsabilidade social muito a sério. Além de ter o lucro destinado a caridade (a fábrica de Tilburg apoia Uganda) ainda contratam pessoas com necessidades especiais e o produto é fabricado de forma sustentável. Dá até gosto de beber assim!

E para fechar eles ainda tem uma loja com todas as cervejas produzidas e mais: queijos feitos com cerveja (comprei e aprovei!), produtos de beleza naturais, mel, biscoitos, produtos religiosos, livros…. uma infinidade de coisas. Eu diria que as cervejas em embalagens e kits especiais vale muito a pena. E o queijo, como já disse, é maravilhoso!

Recomendo demais esse passeio. Ah, para quem curte bicicletar por aí existem várias trilhas para fazer de bicicleta partindo da cervejaria. E para as crianças os jardins calmos são um paraíso. Ótima sugestão para um dia de calor como tem sido esse quase verão por aqui.

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A saudade que nunca vai embora

E eles vieram, finalmente. Em dezembro meus pais vieram me visitar pela primeira vez.

Finalmente vieram até aqui. Enfrentaram o frio, a neve, a distancia, a comida de avião, tudo para conhecer minha vida nova, minha casa, meus amigos, minha gata e meu novo país.

Existe uma ironia em ser adulta perto dos seus pais. Eu tenho muita sorte no quesito pais, mas não estava preparada para como nossa relação ia continuar a mesma e ao mesmo tempo mudar completamente. Continuamos dando risada da cara uns dos outros, e meu pai agora inclui meu marido, com quem ele faz piada mesmo que um não fale a língua do outro. Não estava preparada para ver como a vida suavizou os dois, que ainda são extremamente fortes, mas com uma doçura que eu nunca tinha visto antes. Talvez já estejam virando avós mesmo sem eu ter tido filhos, não sei. Ainda tenho vontade de esganar um ou outro de vez em quando, mas agora sorrio vendo os dois como adolescentes com o celular na mão fofocando com os amigos antes de irem dormir. Ou assistindo televisão com a gata.

E aí, de repente, eles foram embora. E a minha casa minúscula parece gigantesca, e tão vazia que o marido decidiu deixar a árvore de natal porque seria muito triste tirar agora. E a gata ficou carente.

A verdade é que só tenho saudade dentro de mim. Uma saudade que mora em mim já, que no dia a dia fica ali, pequenina, só me espreitando enquanto eu me distraio com mil e uma atividades. Não tenho saudade da minha antiga vida, nem arrependimentos, nem do sol imagine, nada nada. Mas sempre vou sentir falta de algumas pessoas, e principalmente deles. Porque eles me definiram de uma forma que ainda me surpreende, e me apoiam de uma maneira que vai muito além do que se espera de um pai e uma mãe. E como sempre eu penso que eu não estou lá. Estou aqui, vivendo a minha vida, me tornando mais eles a cada dia que passa. E tentando estar sempre ao lado, mesmo tão longe.

Holanda

De Stijl – 100 anos

Esse ano são comemorados os 100 anos do movimento De Stijl, ou Neoplasticismo. Muito resumidamente, para não virar a Wikipedia aqui, esse um movimento artístico de vanguarda fundado por Piet Mondriaan, que olha que coisa, era holandês.

A influência desse movimento revolucionário perdura até hoje, pregando o abstrato de linhas retas verticais e horizontais e uso de cores primárias. Meu pai é um grande fã de Mondriaan, pintor cuja influência na arquitetura, design e pintura foi (e ainda é) tremenda.

E até na música, quer ver só?

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Nesse centenário está rolando muita coisa aqui por terras holandesas, e nessa blogagem coletiva o Blogueiras Brasileiras na Holanda está mostrando o que está acontecendo em cada cantinho do país. E eu vou falar aqui de Eindhoven, a minha cidade.

Para quem não sabe Eindhoven é um importante nome no mundo do design, especialmente pela Design Academy Eindhoven e pela Designhuis. A verdade é que eu mesma ainda não tive tempo de ir conferir #shame mas já estão acontecendo vários eventos na cidade desde o começo do ano (programação completa aqui).

Van Abbemuseum Eindhoven. Photo Peter Cox
Van AbbeMuseum

Na minha opinião o evento mais importante é a exposição Van Abbe en De Stijl que fica até o dia 31 de dezembro deste ano no Van Abbe Museum, além de ter um tour guiado especial no dia 10 de setembro. Dica: todo segundo domingo do mês, de julho à dezembro, das 12 às 13 horas tem tour gratuito no museu, ou seja, só é preciso pagar o ingresso normal.

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Todos os anos temos em Eindhoven a Dutch Design Week (ano passado fui voluntária e adorei a experiência, fica a dica para quem mora por aqui). É um evento incrível em que na cidade toda tem algo acontecendo e atraí milhares de visitantes de toda parte do mundo. Esse ano a edição será entre 21 e 29 de outubro e claro que De Stijl também será tema desse evento que super recomendo.

Enfim, 2017 é um ano especial para quem gosta de arte e está na Holanda. Esse é só uma pequena amostra, se quiser saber sobre eventos da comemoração de 100 anos do De Stijl clique aqui. E aqui estão as demais colaboradoras dessa postagem: Melissa na Holanda, Holandesando, The Nerdyland e Little Jujuba.