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London calling

Meu blog, como já sabem, não tem grandes pretensões, seja de servir de guia ou entrar nessa onda de lifestyle. É blog diarinho mesmo, desavergonhado, que geralmente só serve para eu guardar certas memórias e dividir com quem quer saber de mim o que anda acontecendo na minha vida. Mas nesse post vou me dar a liberdade de dividir algumas dicas porque Londres me demandou muita pesquisa, surgiram algumas surpresas e acho que posso sim ajudar quem estiver pensando em ir pra lá. Mas de novo, sem grandes expectativas, só o que eu contaria para qualquer amigo sobre o lugar.

(E pelo menos dessa vez eu não esqueci de fazer o post porque eu sempre esqueço e o tempo passa, e aí não conto nada pra ninguém)

Esse ano, julho foi o meu mês. Aconteceram tantas, tantas coisas que eu resolvi me dar de presente de aniversário minha primeira viagem sozinha. Engraçado né, com 35 anos na cara essa foi a primeira vez que viajei sozinha mesmo, sem ninguém no lugar de destino, só eu e eu.

Londres era um sonho antigo, de menina, vendo os clips das Spice Girls. Tava mais de na hora de realizar.

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Eu resolvi que iria fazer um tour a pé pelos pubs, com uma pegada literária, e um tour de barco. Só, de resto eu mesma iria onde eu quisesse. Melhor coisa, porque Londres tem tanta coisa pra ver que eu preferi fazer uma visita rápida em vários lugares e poder ver mais, do que tour completinhos e demorados. Mas claro, isso porque foi a minha primeira visita e eu só tinha 4 dias, então queria mais quantidade que qualidade.

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O tour de barco fiz em um pacote com a London Eye, e achei que valeu a pena porque em 40 minutos vimos muita coisa e o guia-capitão era muito divertido, contando curiosidades do 007 e afins. . A vista da roda gigante é legal, mas…. é só isso, vista da cidade. É legal mas eu não colocaria na categoria imperdível. Mas no pacote, de novo, valeu a pena.

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Camden

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Camden é um dos bairro mais hipster (pronto, falei) de Londres. Parte da sua nova fama vem do fato que a Amy Winehouse morava ali, e é tido como um lugar super alternativo e diferente. Sim e não. O mercado do Camden é super legal, com várias coisas realmente originais de decoração, roupa, acessórios, e ainda tem uma parte de comida bem diversificada.

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As lojas ao redor, no entanto, achei beeeem decepcionante. Muita tranqueira chinesa, muita camiseta tudo igual e copiado, muita coisa bem pega turista. Acho que vale a pena para um passeio, pelo mercado, pela comida, mas não é mais essa coisa toda não.

 

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E como era segunda-feira aproveitei que era dia de feira de antiguidades e me mandei para Convent Garden. O lugar é lindo, super turístico, tem comida (não muito barata), e muita coisa para comprar.Nas ruas ao redor do mercado você encontra lojas super sofisticadas (recomendo a loja da Nars, fui e amei o atendidmento), tem loja da Melissa, e além disso vários artistas de ruas super talentosos. Parece que para se apresentarem em Londres eles precisam de uma licensa e demonstrar o talento para conseguir a bendita.

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Mas se a missão for realmente comprar antiguidades, foca no Jubilee Market, atrás do mercado do Convent Garden. Achei que era menos turístico e tinha tanto ou mais coisas que o Convent.

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Mas se tem uma coisa que acho que é imperdível em Londres é ir ver um musical no West End. Eu decidi bem de última hora, por isso Wicked e Hamilton só tinha ingressos super caros (varia de acordo com o lugar). Mas achei um com preço bem decente para ver Everybodys Talking About Jamie, e gente, me apaixonei.

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Os atores são impressionantes, porque eles cantam (divinamente) enquanto dançam, atuam, se movem pelo palco. E tudo ao vivo, ali, na sua cara. Saí toda feliz porque esse musical em especial é super leve e… feliz. Recomendo, muito, com força. E eu sou uma pessoa que nunca vê filmes de musical, então perceba.

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Um lugar bem interessante que fui só porque vi na pesquisa é o Sky Garden. É um dos prédios mais altos da cidade, e na cobertura tem realmente um jardim, além de um café e restaurantes. O mais legal é que se você agendar com antecedência dá para subir de graça, e se tiver sorte tem até balcão aberto. Ótima pedida para fotos e um café, vários turistas ficam lá batendo papo e descansando.

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Eu não tive sorte, porque fui justamente no meu último dia na cidade, e estava super chuvoso. Mesmo assim, adorei.

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Comida

Se tem um lugar pra comer que eu recomendo de olhos fechado é o Regency Café, para se experimentar o legítimo café da manhã inglês. O lugar é super vintage e tradicional, e turistas e locais dividem o espaço. O dono te atende na maior simpatia, e quando você vai embora grita um tchau Fulano! super simpático. O prato é super bem servido e só vai dar fome muitas horas depois, e não é caro (paguei 6,5 libras com o café).

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(Detalhe que agora fui ver o site do café e descobri que já foi locação de séries e filmes, olha só!)

Ainda sobre comida, fui surpreendida nesse quesito. Londres tem MUITA comida boa, e em cada esquina. Quase não fui em restaurantes, na maior parte das vezes comi em feiras gourmetizadas, e parece que sempre brota uma no caminho. E aí é pegar o pratinho e achar um lugar pra sentar.

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Para não dizer que não comi em nenhum restaurante, comi no Leon, que quase nem se encaixa nesse quesito. É um fast-food saudável, com ótimas opções veganas e preço decentes. Curti. Ah, e tem vários espalhados pela cidade.

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E ainda tem os pubs pra falar. Eu bebi em vários (valeu tour literário) e comi em um na região Fritzrovia (adorei lá), o The Marquis of Granby, que tem graça para quem fez o tour e saber que Dylan Thomas também bebeu lá (sério, ele bebeu em todos os pubs do bairro). A comida era bem boa, mas não tão barata. Vale pela experiência.

E tem ainda os mercados mesmo, tipo mercado municipal. Tem vários, e todos ótimos para comer, com comida de tudo que é país. E coisas para comprar, jesuis, obrigada Ryanair e a mala pequena, ou eu estava lascada. O que eu mais gostei fui por acidente, no último dia, porque eu fui logo pra estação mas ainda tinha muito tempo pra matar. Pertinho da estação Liverpool Street fica o Spitalfields Market, e eu recomendo DEMAIS esse lindo para uma refeição, comprar, e um café maravilhoso.

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Dicas

  • Faça pesquisa. Londres é enorme, tem muita coisa para ver e fazer, e você vai precisar sim se preparar. Veja o que quer ver, o que é imperdível para você, tenha pelo menos uma lista. Eu não sou muito fã de ter um roteiro muito restrito, tipo programar tudo que se quer fazer em todos os dias de viagem, mas algumas coisas tem que ser agendadas antes. E além disso fica mais fácil fazer as coisas que ficam perto umas das outras juntas, porque o tempo no transito pode ser precioso (nisso eu errei). Mas deixe espaços no seu roteiro porque sempre tem alguma coisa nova que você não tinha ideia no caminho, e poder parar para apreciar é metade da graça de viajar.
  • Se prepare porque a) Londres é cara e b) tem tanta coisa legal pra comprar que dá vontade de levar o mundo e c) você vai gastar. Fiquei até feliz pela mala de mão, porque o estrago seria bem maior se eu fosse despachar bagagem.
  • Reserve tempo para descansar. Aconteceu comigo, morri de tanto andar e teve uma noite que simplesmente não deu, fiquei no hotel de molho para poder encarar o outro dia. Falando nisso…
  • Traga mais de um sapato. Esse foi um erro besta meu, querendo economizar espaço na bagagem (Ryanair, fui com mala de mão, já viu) e isso quase que acabou com os meus pés. Tem que ter pelo menos dois pares para revesar, porque quando a gente anda demais e o sapato fica pegando sempre no mesmo lugar, vira tortura. Vai por mim. E tênis é a melhor opção.
  • A localização da hospedagem é importante. Eu fiquei no Lidos Hotel, no bairro Pimlico (até agora não sei como pronuncia), e adorei. Fica entre duas estação e tem uma linha de ônibus que cruza a cidade e para na porta. Não foi super caro, também não foi o mais barato, mas a localização é tão boa que economizei no transporte.
  • Para andar pela cidade de transporte público o melhor é comprar um Oyster Card. Inclusive, dá pra comprar antes de ir e receber em casa. Ou comprar lá (eu fiz isso), e pedir ajuda para saber quanto colocar no bendito. O funcionário que me ajudou acertou na lata.
  • Use e abuse dos ônibus. É mais barato, mais fresco, e geralmente no andar superior está vazio e é quase um tour. Fora que andar nos tais ônibus vermelhos é todo um charme. E sempre dá pra descer no meio do caminho se encontrar alguma coisa legal.
  • O metrô funciona bem, tem linha pra todo lado, mas é antigo e super abafado. Se for no calor, considere.
  • Dica de app para transporte público: city mapper. Para o transporte em Londres é muito melhor que Google Maps, e tem ótimas instruções. Fora que é atualizado, então se houver manutenção na linha, você vai ficar sabendo.
  • Se for na Kings Cross ver a estação do Harry Potter, tente ir durante a semana. A tonta aqui foi em um domingo, pegou fila pra entrar na loja (na estação mesmo desisti porque era muita gente), e depois descobri que tem uma loja MUITO MAIS LEGAL perto de Convent Garden (House of Spells, 69 – 71 Charing Cross Rd, London WC2H 0NE, UK – ainda sem website). Né.

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Por último… não dê bobeira. Londres é sim segura, mas nenhum lugar é o paraíso. A cidade é grande, tem gente esquisita na rua, tem muito turista e por isso tem ladrão, tem que ficar esperto. Eu viajei sozinha, e só uma noite em que voltei do musical fiquei meio cabreira, mas nada grave. Nada que quem mora no Brasil não se vire, mas de novo, olhos abertos e atentos. Assim cuidado bom bolsas, mochilas, ande onde tem mais gente… aquilo que a gente já sabe.

A tal da preparação

A internet pode ainda ser maravilhosa, e pra essa viagem pesquisa foi essencial. Youtube, eu te amo. Quando comecei a pensar nessa viagem, como eu só teria 4 dias, quis ver o que rolava na cidade e pegar o máximo de informação possível. Aqui tem alguns canais que achei incríveis para quem está planejando uma viagem para as terras da rainha:

Love and London: meu favorito. Feito por uma americana (acho?) e tem dicas para tudo que você imaginar. Super didático, recomendo checar principalmente os roteiros, listas de lugares imperdíveis e sobre transporte público.

Estevam pelo mundo: achei esse canal por causa de Londres e virei fã! O Estevam vai pra tudo que é lugar e as dicas de Londres foram ótimas!

E assim que comemorei essa nova fase na minha vida. Viajar sozinha foi muito mais legal do que eu imaginava, mas sei também que o destino ajudou. Londres é uma cidade maravilhosa, e eu sou obrigada a voltar porque eu só comecei a descobri-la. Espero que as dicas aqui ajudem outros viajantes a se apaixonarem por Londres como eu.

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vida de imigrante

Brasil, dois anos depois

Esse post demorou para sair da minha cabeça. Demorei quase 3 meses para colocar aqui a extrema saudade que me dá não de um lugar, mas de pessoas e de uma vida que não volta mais. Demorei por não saber bem o que dizer até.

Junto com dois anos de Holanda, vem dois anos sem Brasil. Finalmente retornei, vi os meus, vi a minha antiga vida. Não vi todos que eu queria, não fiz tudo que eu queria e nem vivi tudo que eu queria. A saudade é grande mas o tempo foi pequeno.

Alguns amigos me disseram que seria estranho, outros que tudo seria igual mas eu seria a estranha. É difícil dizer quem mudou mais, eu ou a minha antiga vida. De repente percebi que esqueci alguns detalhes, outros eu nunca tinha percebido antes. Não sei mais onde ficam as coisas em casa, não sei mais separar o lixo e me pego pedindo licença.

Estranhei o trânsito, estranhei o calor e até como as pessoas dão voltas. Me vi estranha, mais dura, ainda mais sincera (grossa até) sem querer, sem saber como lidar com as eternas voltas que se dão nos assuntos. Me peguei mil vezes pensando se sempre foi assim, e acho que sempre foi sim.

Lembrei de como as pessoas abraçam a gente assim tão fácil, como o sorriso está sempre estampado, como tudo é doce e barulhento. Tinha uma lista de coisas pra comer. Consegui não brigar com ninguém por política, e mesmo triste por esse país dividido, ainda assim consegui ter esperança. Vi minha família, tomei água da bica. Vi minha avó, que não chora mais em despedidas, uma vitória que acho que vem com a idade. Eu ainda choro, porque não sei se a gente vai se ver de novo. Ela se limitou a dizer tchau.

Chorei também com a gata que lembrava de mim e dormiu comigo todo dia. Confirmei que amigos não conhecem distância, que sempre vai parecer que nos vimos outro dia e o papo vai continuar a fluir assim, fácil. Que irmã que se escolhe sempre vai ser irmã, e com o coração pesado tive que dar tchau.

Meus pais cresceram sem eu estar por perto. Deram conta, decidiram coisas. Essa arrogância de achar que a vida só acontece quando você está olhando é só isso mesmo, arrogância. A vida continua, com ou sem você.

Realmente foi estranho. Tudo mudou, e tudo continuou igual. Eu mudei e ainda assim estava em casa.

E tive que dar tchau e voltar para a minha dimensão sem saber quando vou voltar.

E ainda estou aqui escrevendo sem saber bem o que dizer.

vida de imigrante

Cenas de Outono🍁

Desde que vim para a Holanda minha estação do ano favorita é o Outono. Embora por aqui essa época seja famosa por chuva e frio, os dias de sol que fazem meu coração bater mais forte.

Eu tenho aproveitado muito bem os dias de sol, com folhas pelo chão. As cores das árvores é de outro mundo, sendo que as árvores vermelhas são as minhas favoritas. Eu e o marido saímos por aí só porque sim, para aproveitar e ver as cores de outono… Aqui algumas cenas do outono de 2018:

As mini cabras da minha amiga – profissão das duas é ser linda e receber carinho ❤️

Lulu

Zodra (filha de Satan de acordo com a dona, realmente rebelde) com o rabinho branco.

Aqui um dia nem tão lindo e um dia maravilhoso de sol!

Cerveja da estação!

Bo na cama nova

Bons entendedores entenderão

E por fim…. culinária holandesa!

E assim os dias estão passando, cada dia mais curtos, e as árvores perdendo as folhas…. adoro essa expectativa de aguardar o inverno. Os casacos já saíram do armário e as botas estão nos pés.

A Holanda é linda ainda mais nessa época, recomendo visitar. A chuva? Faz parte do pacote e não é nada que uma capa não resolva.

vida de imigrante

2 anos de Holanda

Em agosto completei 2 anos morando na Holanda. Confesso que esqueci e só agora parei para pensar no assunto e esse esquecimento em si mesmo me fez refletir.

A verdade é que depois de um tempo estar aqui se tornou meu novo normal. Não sei bem quando aconteceu, só sei que de repente as casas bonitinhas viraram norma, sair de bicicleta também, e reclamar dos trens virou algo rotineiro.

A gente se adapta, às vezes mais rápido do que imaginava. Eu fico até sem jeito de escrever isso, porque não é por falta de amor pelo o que deixei pra trás, mas hoje em dia estar aqui é simplesmente… normal. Essa outra dimensão agora é a minha dimensão.

Estou em casa, mesmo sem nunca realmente ser holandesa. Claro que sempre vai ter um certo estranhamento, referências faltando, piadas que nunca vão ser entendidas. Mas também tem coisas que com as quais me sinto muito mais confortável aqui. Quem me conheceu no Brasil sabe que eu poderia ser considerada grossa pelo meu jeito direto de ser – aqui isso é normal. Que eu já curtia frio e chuva, e posso dizer que isso não me falta mais. Que sempre cheguei no horário ou até adiantada, e agora adoro não ter que esperar por ninguém.

Em 2 anos conquistei algumas coisas, mas outras estão demorando mais do que imaginava. O holandês é uma língua difícil, e eu sou uma estudante não tão dedicada como gostaria. Ainda não tenho minha carteira de motorista daqui, por falta de tempo, por ser cara e até por preguiça. Mas já tenho amigos “antigos”, rotina, lugares favoritos. Sei como chegar nos lugares, carrego as compras na bicicleta sem problemas. Tenho amigos holandeses, com quem posso reclamar do tempo e do almoço que é duas fatias de pão e uma de queijo (true story).

É um alívio ver que me acostumei com as coisas, mesmo que isso signifique que aquela curiosidade quase infantil por tudo está desaparecendo. É um alívio que tem uma dorzinha no fundo, de saber que eu nunca mais vou ser quem eu era antes de deixar meu país. Em saber que quando eu visitar a minha terra eu provavelmente vou estar desconfortável lá, desacostumada com as coisas mais banais.

Que estando lá, vou estar com saudades de casa.

vida de imigrante

La Trappe

Voltando para tirar o pó desse blog porque ideias não faltam, mas tempo para escrever….

E para comemorar meu retorno, vim mostrar um lugar aqui no sul da Holanda que amei: a cervejaria La Trappe na cidade de Tilburg.

Para começar as cervejas trapista são cervejas especiais: somente 11 marcas no mundo possuem esse título. Para serem consideradas trappist as cervejas devem ser fabricadas dentro das paredes de um mosteiro da ordem, sob supervisão dos monges e parte dos lucros são destinados à caridade, sendo que a empresa não tem fins lucrativos.

Em Tilburg a cervejaria começou com monges franceses e toda a história pode ser conferida aqui. O lugar é lindo, com o mosteiro, a fábrica, jardins, uma capelinha e um restaurante. Ainda é possível fazer uma visita guiada (não fiz ainda, preciso voltar!), com direito a degustação. No website tem a relação de programas e horários.

Nessa minha primeira visita confesso que fui é conferir a comida do restaurante local. Tenho que dizer: é divina!

Eles tem um cardápio bem variado e várias das receitas levam a cerveja produzida no local. Um detalhe: o restaurante fecha cedo, então acho que é mais uma opção para o almoço e vale checa o horário de funcionamento antes de ir.

Além do lugar ser lindo, a comida e a cerveja maravilhosas, é bom saber que a La Trappe leva responsabilidade social muito a sério. Além de ter o lucro destinado a caridade (a fábrica de Tilburg apoia Uganda) ainda contratam pessoas com necessidades especiais e o produto é fabricado de forma sustentável. Dá até gosto de beber assim!

E para fechar eles ainda tem uma loja com todas as cervejas produzidas e mais: queijos feitos com cerveja (comprei e aprovei!), produtos de beleza naturais, mel, biscoitos, produtos religiosos, livros…. uma infinidade de coisas. Eu diria que as cervejas em embalagens e kits especiais vale muito a pena. E o queijo, como já disse, é maravilhoso!

Recomendo demais esse passeio. Ah, para quem curte bicicletar por aí existem várias trilhas para fazer de bicicleta partindo da cervejaria. E para as crianças os jardins calmos são um paraíso. Ótima sugestão para um dia de calor como tem sido esse quase verão por aqui.

vida de imigrante

A saudade que nunca vai embora

E eles vieram, finalmente. Em dezembro meus pais vieram me visitar pela primeira vez.

Finalmente vieram até aqui. Enfrentaram o frio, a neve, a distancia, a comida de avião, tudo para conhecer minha vida nova, minha casa, meus amigos, minha gata e meu novo país.

Existe uma ironia em ser adulta perto dos seus pais. Eu tenho muita sorte no quesito pais, mas não estava preparada para como nossa relação ia continuar a mesma e ao mesmo tempo mudar completamente. Continuamos dando risada da cara uns dos outros, e meu pai agora inclui meu marido, com quem ele faz piada mesmo que um não fale a língua do outro. Não estava preparada para ver como a vida suavizou os dois, que ainda são extremamente fortes, mas com uma doçura que eu nunca tinha visto antes. Talvez já estejam virando avós mesmo sem eu ter tido filhos, não sei. Ainda tenho vontade de esganar um ou outro de vez em quando, mas agora sorrio vendo os dois como adolescentes com o celular na mão fofocando com os amigos antes de irem dormir. Ou assistindo televisão com a gata.

E aí, de repente, eles foram embora. E a minha casa minúscula parece gigantesca, e tão vazia que o marido decidiu deixar a árvore de natal porque seria muito triste tirar agora. E a gata ficou carente.

A verdade é que só tenho saudade dentro de mim. Uma saudade que mora em mim já, que no dia a dia fica ali, pequenina, só me espreitando enquanto eu me distraio com mil e uma atividades. Não tenho saudade da minha antiga vida, nem arrependimentos, nem do sol imagine, nada nada. Mas sempre vou sentir falta de algumas pessoas, e principalmente deles. Porque eles me definiram de uma forma que ainda me surpreende, e me apoiam de uma maneira que vai muito além do que se espera de um pai e uma mãe. E como sempre eu penso que eu não estou lá. Estou aqui, vivendo a minha vida, me tornando mais eles a cada dia que passa. E tentando estar sempre ao lado, mesmo tão longe.

Holanda

De Stijl – 100 anos

Esse ano são comemorados os 100 anos do movimento De Stijl, ou Neoplasticismo. Muito resumidamente, para não virar a Wikipedia aqui, esse um movimento artístico de vanguarda fundado por Piet Mondriaan, que olha que coisa, era holandês.

A influência desse movimento revolucionário perdura até hoje, pregando o abstrato de linhas retas verticais e horizontais e uso de cores primárias. Meu pai é um grande fã de Mondriaan, pintor cuja influência na arquitetura, design e pintura foi (e ainda é) tremenda.

E até na música, quer ver só?

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Nesse centenário está rolando muita coisa aqui por terras holandesas, e nessa blogagem coletiva o Blogueiras Brasileiras na Holanda está mostrando o que está acontecendo em cada cantinho do país. E eu vou falar aqui de Eindhoven, a minha cidade.

Para quem não sabe Eindhoven é um importante nome no mundo do design, especialmente pela Design Academy Eindhoven e pela Designhuis. A verdade é que eu mesma ainda não tive tempo de ir conferir #shame mas já estão acontecendo vários eventos na cidade desde o começo do ano (programação completa aqui).

Van Abbemuseum Eindhoven. Photo Peter Cox
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Na minha opinião o evento mais importante é a exposição Van Abbe en De Stijl que fica até o dia 31 de dezembro deste ano no Van Abbe Museum, além de ter um tour guiado especial no dia 10 de setembro. Dica: todo segundo domingo do mês, de julho à dezembro, das 12 às 13 horas tem tour gratuito no museu, ou seja, só é preciso pagar o ingresso normal.

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Todos os anos temos em Eindhoven a Dutch Design Week (ano passado fui voluntária e adorei a experiência, fica a dica para quem mora por aqui). É um evento incrível em que na cidade toda tem algo acontecendo e atraí milhares de visitantes de toda parte do mundo. Esse ano a edição será entre 21 e 29 de outubro e claro que De Stijl também será tema desse evento que super recomendo.

Enfim, 2017 é um ano especial para quem gosta de arte e está na Holanda. Esse é só uma pequena amostra, se quiser saber sobre eventos da comemoração de 100 anos do De Stijl clique aqui. E aqui estão as demais colaboradoras dessa postagem: Melissa na Holanda, Holandesando, The Nerdyland e Little Jujuba.

Holanda · vida de imigrante

Um ano de Holanda

Dia 10 de agosto faz um ano que saí do Brasil.

Já voltei uma vez, e confesso que já foi meio esquisito: ainda não estava definitivamente fora do país porque justamente tinha aquela viagem de volta já marcada para ali 90 dias. Mas também já não estava lá, porque minhas coisas e minha vida começavam a se acomodar na Holanda.

Minha casa não era mais a minha casa.

Depois saí, sem data para voltar, se bem que com alguma vontade. As coisas se encaixaram aqui de uma forma que eu não previ. Pode ser fase de lua de mel, sim, tem disso. Mas pode ser que não, e eu espero que esse sentimento confortável que tenho vivendo aqui fique.

Claro que a saudade existe, e acho que vai existir sempre. Pelas pessoas que amo e que estão longe, pela minha vida de lá que não existe mais, pelo pão de queijo nosso de cada dia que não tenho mais. Mas aqui já tenho rotina, já tenho amigos, trabalho, sonhos. Até marcas favoritas no mercado, programas tradicionais de cada dia. Uma vida nova que se formou.

Então, parabéns para mim, por um ano de vida holandesa. Por um ano de saudade, e por um ano de novas descobertas.

diarinho · vida de imigrante

Bo, the cat

Quando eu vim para cá além de morrer de saudade da minha família tive que lidar com outra ausência tão doída quanto: as dos meus gatos.

Quem tem um amor peludo em casa vai saber do que eu estou falando. Estar completamente sozinha em casa era algo estranho para mim. Mesmo quando morei fora de casa nunca foi tão silencioso, e de repente eu me vi all alone de verdade, sem nenhum gato por perto para conversar #adoida.

Trazer meus 3 gatos não era uma opção porque eles tem uma vida realmente ótima no Brasil, com os meus pais. Eles são uma família entre si, mesmo a minha caçula que é a gata mais minha mesmo não tinha jeito de trazer.

Então uma das minhas poucas demandas na mudança era justamente ter um animal de estimação. Meu namorido nunca teve nada, e dizia que queria um cachorro. Mas com a vida que a gente leva no momento o bichinho ia ficar sozinho em casa, o quintal é pequeno e achamos que era mais problema que solução.

Eu que sempre fui dos gatos, queria um gatinho filhote para amar. De novo a falta de tempo no meio, já que não tinha como deixar um filhote sozinho. Então decidimos que um gato adulto que não precisasse sair toda hora seria o ideal.

Enquanto isso eu ficava namorando os animais disponíveis para adoção no Ik zoek een baas, site que mais que indico. Lá tem animais em abrigos em toda a holanda, e muitos tem até um resuminho da personalidade do bicho.

Eis que um dia, do nada, vejo uma foto de uma gata a cara da minha gorda, gata que ficou no Brasil com os meus pais, e que meu namorado adora. Mandei foto para ele e ele me responde com um “ok, essa a gente pode adotar”. Isso depois de tanto tempo de indecisão. Marcamos e em um dia de folga fomos visitar a gatinha.

Aí já era. Foi amor de cara, e na hora decidimos levar para casa. Foi até engraçado porque os funcionário do abrigo não estão acostumados com esse povo decidido, perguntavam toda hora se a gente queria reservar a gata. Pagamos a taxa (120 euros) e decidimos já comprar o kit todo com caixinha de transporte, banheiro, areia e até ração do próprio abrigo (acho que foi 70 euros mas vem com tudo, tudo mesmo). Eles são super organizados e cuidam muito bem dos animais, preferimos dar nosso dinheiro para eles do que comprar em uma loja.

E foi assim que essa senhora de 12 anos entrou em nossas vidas.

Para quem dúvidas sobre adotar um gato adulto, gente, relaxa. No Brasil eu sempre achei meus gatos na rua, e muitos eram adultos. Com paciência eles se adaptam. Aqui foi mais tranquilo ainda porque eles te dão todo o perfil do gato. O negócio é ter paciência até o gato se adaptar, afinal é muita mudança para o coitado.

A Bo no primeiro dia se escondeu de um jeito que a gente jurou que tinha perdido a gata, mas no final ela tinha se enfiado em um vão de um móvel. Hoje ela dorme na cama de hóspedes e vive atrás da gente.

A safada agora vive se jogando no chão pedindo carinho na barriga, pode? ❤

vida de imigrante

E a família, como vai?

Acho engraçado que quando falo com alguém do Brasil sobre morar fora as reações quase sempre são duas: ou a pessoa é super encorajadora, ao ponto de ver somente o lado positivo de sair do país, ou solta um “ah, eu não conseguiria” geralmente seguido de “sou muito ligado à minha família”.

Como se eu não fosse.

Morei com os meus pais quase toda a minha vida. E além disso posso dizer que sempre fui muito próxima deles, e dos dois. Sim, eles me deixam maluca de vez em quando, como todos os pais nos deixam. Mas eu sempre pude conversar com eles, de verdade. E tive muita sorte porque além de ótimos pais, meus pais são pessoas corajosas que também ganharam o mundo.

Além disso tenho uma irmão que agora, na maturidade, posso dizer que conheço bem.  Porque tem muita gente que mal conhece seus irmãos. E sei que posso contar com ele, assim como ele pode contar comigo.

Meus pais sempre viveram no Brasil. Mas é engraçado pensar que quando eles saíram de casa para morarem em outros estados, eles estavam indo para muito mais longe do que eu vim para a Holanda. Lá na década de 60 quando minha mãe aos 18 anos deixou uma fazenda em Santa Catarina para ganhar o mundo em São Paulo a comunicação com a minha nonna era por carta, que demorava muito para chegar. Elas não se falavam. Hoje eu falo todo dia com a minha mãe, e muitas vezes com video. Ela sabe como foi o meu dia, como está a minha vida e até o que estou pensando em fazer para o jantar, tudo.

Meu pai então…. saiu do Pará para ir estudar e trabalhar em São Paulo, só com passagem de ida e muita coragem. A passagem de volta era tão cara que ele ficou sem ver a família por anos. Anos.

Eu tenho o privilégio de poder planejar vê-los pelo menos uma vez por ano. Meu irmão já veio me visitar e estamos planejando que meus pais ainda esse ano venham me ver. E eu não estou aqui nem um ano completo.

Mas claro, pode não ser mais tão distante, mas também não é perto. E dói. Meu coração vive apertado porque quando vim para cá minha mãe passou por um problema sério e delicado. E eu não estava mais lá. Não tem como não sentir que se está abandonando o barco.

Mas de novo, eu tive muita sorte. Porque não tem filha mais dedicada que a minha mãe com a minha nonna, mesmo que ela nunca tenha voltado para casa. Porque meu pai apoiou a mãe dele da melhor maneira possível, e no final da vida ela estava perto dele, pelos esforços dele.

E assim, por crescer em uma casa sabendo que a distância pode ser debaixo do mesmo teto e a proximidade pode ter muitos quilômetros no meio, onde meus pais mais que me apoiaram durante a minha vida, mesmo não concordando ou até eles mesmos sofrendo, sei que a distância é relativa e que sempre estamos juntos. E para mim isso é amor, isso é ser pai e mãe de alguém – é ensinar a voar.

Então, dica: aquela pessoa que foi voar sofre também. Mas ela voa. Não ache que ela não sofre, ou ama menos, não julgue ou se ache diferente dela.

O amor dela que supera distâncias.